
Em setembro, ao lembrar os 140 anos do nascimento de Tarsila do Amaral, uma analogia aparentemente improvável me veio à mente: seu valioso quadro Abaporu (homem que come carne de gente, em tupi-guarani) inspirou o Movimento Antropofágico. Seu manifesto, redigido pelo marido da artista, o escritor Oswald de Andrade, propunha “devorar” as influências internacionais, visando à absorção crítica e à transformação da cultura estrangeira para criar uma identidade genuinamente nacional.
Pois bem, a indústria brasileira, que aprecia a estética da livre, leal e isonômica concorrência, não deseja devorar os produtos importados nem os competidores estrangeiros com os quais disputa o mercado interno e o mundial, mas também não quer ser engolida. Por isso, é preocupante observar que tem sido muito prejudicada, assim como o varejo, por um processo autofágico promovido pelo poder público contra as empresas do próprio Brasil.
Seriam fundamentais, neste momento, iniciativas capazes de fazer nossa economia crescer de maneira robusta e sustentada e enfrentar com mais desenvoltura a conjuntura global marcada por conflitos bélicos, disputas comerciais cada vez mais acirradas e o endurecimento da política tarifária dos Estados Unidos. No entanto, numa conduta contraditória, o Governo Federal e o Congresso acabam de afetar a competitividade das empresas nacionais, já muito pressionadas historicamente pelo “Custo Brasil”. Sim, aquelas abnegadas organizações que, apesar de tudo, continuam acreditando no País, gerando empregos e pagando impostos.
Refiro-me à aprovação, no Parlamento, da PEC que extinguiu a jornada 6×1, aumentando os ônus trabalhistas de um país que já convive com encargos elevadíssimos, e à Medida Provisória 1.357/2026. Esta, impondo concorrência desigual contra empresas brasileiras, concedeu alíquota favorecida de 30% para importações de até US$ 3 mil e extinguiu a “taxa das blusinhas”, proporcionando total isenção às encomendas internacionais de até US$ 50.
Ambos os atos, adotados por mero interesse eleitoral, são nocivos para as empresas, os trabalhadores e toda a população. Foram adotados por meio de um acordo político pontual entre os poderes Executivo e Legislativo, sem uma análise responsável e aprofundada de seus efeitos no médio e no longo prazo.
Estamos diante de um paradoxo preocupante, pois as duas medidas, com evidente apelo eleitoral, apresentam-se sob o argumento retórico de pretensos benefícios para consumidores e trabalhadores. Seus efeitos práticos, contudo, são opostos: redução da competitividade, aumento dos custos empresariais, desestímulo aos investimentos e ameaça a milhões de postos formais de trabalho.
Conforme defendia o Movimento Antropofágico, inspirado no quadro de Tarsila, deveríamos absorver o que existe de melhor no mundo, rejeitar o que não é adequado, estimular a inovação, elevar a produtividade e tornar nossas empresas mais competitivas. O que não podemos aceitar é a canibalização dos interesses maiores do povo brasileiro, dos empregos e dos investimentos produtivos, estimulada pelo insaciável apetite eleitoreiro daqueles para os quais o futuro do País parece resumir-se às urnas de outubro.
Foto: *Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
