
*No Carnaval, nem sempre lembramos que no momento das escolas de samba e os blocos nos sambódromos e no asfalto, a indústria também desfila. Está nos motores que movem os carros alegóricos, nos pneus que sustentam toneladas de sonho em movimento e nas estruturas metálicas que erguem castelos, florestas, naves espaciais, histórias de personagens e deuses africanos. Encontra-se nos tecidos que viram fantasias, nas espumas que ganham forma de esculturas, nas tintas que transformam isopor em ouro, nas lantejoulas, nas plumas artificiais, nos adesivos, nas colas, nos fios e nos LEDs que fazem a noite virar dia. E, claro, nos microfones, amplificadores que leva a música a todos.
O Carnaval, pura explosão de arte popular, é também uma grande vitrine do que sai do chão de fábrica. Os instrumentos das baterias (surdos, caixas, repiques e tamborins) são resultado de madeira tratada, metais moldados e peles sintéticas desenvolvidas com muita tecnologia. A serpentina que voa sobre o público vem de processos gráficos. As máscaras misturam plásticos, tecidos, elásticos e pigmentos. Os estandartes das porta-bandeiras combinam bordados, estruturas e tintas especiais. Os sapatos do mestre-sala, das passistas, dos ritmistas e de cada componente da escola são couro, borracha, tecidos técnicos, design e logística. Tudo passa antes pela engenharia, química, metalurgia, setor têxtil e de confecção e numerosos outros segmentos da indústria de transformação.
Porém, nada disso, sozinho, é espetáculo e arte. É o talento de carnavalescos, compositores, costureiras, aderecistas, ferreiros, soldadores, ritmistas, coreógrafos e a ginga do samba no pé que transforma parafuso em poesia visual. Sem falar dos equipamentos de filmagem e transmissão para milhões de pessoas em todo o mundo. A indústria fornece a matéria; o povo brasileiro entrega a alma. Dessa combinação surge um dos maiores espetáculos da Terra, gerador de empregos, renda, turismo, serviços e visibilidade internacional.
O mundo vibra e assiste ao Carnaval brasileiro, mas o que aplaude, a rigor, é a capacidade produtiva de um país inteiro. Afinal, a mesma indústria que ajuda a erguer um carro alegórico está no tênis que vai à escola, no ônibus que cruza a cidade, no celular que desperta pela manhã, no computador do escritório, na caneta, no caderno, na carteira escolar, na mochila, nos óculos, no relógio, na geladeira, no fogão, no chuveiro, na lâmpada, na tomada, no sofá, no colchão, na roupa de cama, na embalagem do alimento, na panela, no filtro de água, na bicicleta, no elevador, no remédio, no capacete de obra, no uniforme do hospital e na máquina agrícola que plantou o que chega à mesa. Do acordar ao dormir, vivemos cercados de inteligência produtiva transformada em objetos que movem e melhoram o mundo.
Assim como no Carnaval, todos esses bens não valem apenas pelo que são, mas também pelo que movimentam a jusante e a montante de todas as cadeias de valor. No fluxo de cada produto industrial há segmentos inteiros de fornecedores, transportadoras, serviços, comércio, tecnologia e pesquisa. É o setor com maior poder de multiplicação na economia, irradiando crescimento, empregos de melhor qualificação, renda, inclusão social e inovação. Onde uma fábrica nasce, o entorno desenvolve-se junto com ela.
Ou seja, os desfiles dos carnavais são uma metáfora perfeita. A indústria constrói a estrutura e fornece os materiais, equipamentos e soluções tecnológicas. A criatividade, talento e o esforço dos brasileiros proporcionam forma, cor, ritmo e sentido. Sem fábrica, não há alegoria; sem gente, não há encanto. Quando os dois caminham juntos, o País não apenas samba. Faz muito mais do que isso: cresce e demonstra que, com políticas públicas corretas e o empenho de todos nós, o enredo de nossa história pode ser muito melhor. E será!
Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
